Oeste da Bahia

O fio do lixo: de Barreiras à investigação da PF que alcança ACM Neto

O fio do lixo: de Barreiras à investigação da PF que alcança ACM Neto

Contratos milionários em Barreiras, a passagem de Otoniel Teixeira por Belo Horizonte e a relação entre ACM Neto, Bruno Barral e o empresário Marcos Moura aparecem em diferentes pontos de uma investigação que agora alcança contratos de mais de R$ 80 milhões

A Polícia Federal abriu uma nova frente de investigação sobre contratos públicos da área de Educação de Belo Horizonte que coloca no mesmo enredo nomes com trajetórias políticas e empresariais que passam por Bahia e Minas Gerais.

Entre os investigados estão o empresário José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, e Bruno Oitaven Barral, ex-secretário de Educação de Belo Horizonte e ex-secretário de Educação de Salvador durante a gestão de ACM Neto.

A apuração também alcança ACM Neto. A Polícia Federal pediu autorização para realizar busca e apreensão contra o ex-prefeito de Salvador, mas o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, negou a medida. Segundo informações divulgadas a partir dos autos, a PF investiga se Neto participou da indicação de Barral para a Secretaria de Educação de Belo Horizonte com o objetivo de favorecer empresários em contratações públicas mediante eventual retorno ilícito.


Barreiras: onde a história começa

Em Barreiras, o nome de Marcos Moura aparece associado à MM Consultoria Construções e Serviços, empresa especializada em limpeza urbana.

Levantamento publicado com base em dados do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia aponta que a empresa passou a prestar o serviço de limpeza pública de Barreiras em 2017, no início da administração de Zito Barbosa.

Segundo esse levantamento, os pagamentos registrados entre 2017 e 2024 somaram R$ 155,9 milhões. Apenas em 2024, os pagamentos teriam ultrapassado R$ 27 milhões.

Os valores anuais informados são:

AnoPagamentos informados
2017R$ 9,30 milhões
2018R$ 17,46 milhões
2019R$ 18,37 milhões
2020R$ 18,79 milhões
2021R$ 21,52 milhões
2022R$ 20,36 milhões
2023R$ 25,04 milhões
2024R$ 27,08 milhões
TotalR$ 155,92 milhões

O dado é relevante porque mostra que a relação contratual atravessou toda a gestão de Zito Barbosa.


A viagem de Otoniel a Belo Horizonte

É nesse ponto que surge outro elemento temporal relevante.

Em 13 de novembro de 2025, Otoniel Teixeira esteve em Belo Horizonte acompanhado do vice-prefeito Túlio Viana e do secretário municipal de Educação, Jeferson Barbosa — irmão de Zito Barbosa.

Segundo a divulgação pública da agenda, a viagem teve caráter institucional e educacional. A comitiva de Barreiras foi recebida pelo prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião, e pela secretária municipal de Educação, Natália Araújo.

O objetivo anunciado era conhecer programas educacionais desenvolvidos na capital mineira, incluindo o Escola Integrada e o Programa de Atendimento Educacional Integrado.

A data ganha relevância jornalística porque a investigação atual da Polícia Federal examina justamente contratos da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte celebrados entre 2024 e 2025. A PF informa que pelo menos três procedimentos investigados resultaram em contratos que, somados, ultrapassam R$ 80 milhões.

Isso, contudo, não estabelece por si só qualquer ligação entre Otoniel Teixeira e a investigação.


Bruno Barral: a ponte entre Salvador e Belo Horizonte

Bruno Barral é uma das figuras que efetivamente conectam as administrações municipais de Salvador e Belo Horizonte.

Durante a gestão de ACM Neto em Salvador, Barral ocupou inicialmente a Diretoria de Serviços de Iluminação Pública. Em setembro de 2017, foi promovido por Neto à Secretaria Municipal de Educação, onde permaneceu até o fim da administração, em dezembro de 2020.

Em abril de 2024, Barral assumiu a Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte. Permaneceu no cargo até abril de 2025, quando foi afastado por determinação judicial no contexto da Operação Overclean.

Agora, na 10ª fase da operação, ele voltou a ser alvo da Polícia Federal. A investigação concentra-se em procedimentos de contratação da Educação de Belo Horizonte.


A 10ª fase da Operação Overclean

Deflagrada em 17 de setembro de 2026, a décima fase da Operação Overclean cumpriu 24 mandados de busca e apreensão em seis estados: Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Tocantins, Paraná e Espírito Santo.

Segundo a Polícia Federal, a investigação apura indícios de direcionamento de procedimentos para fornecimento de serviços e materiais didáticos na Prefeitura de Belo Horizonte.

Pelo menos três procedimentos analisados resultaram em contratos que, somados, ultrapassam R$ 80 milhões. A PF afirma que os fatos investigados podem, em tese, caracterizar crimes contra a Administração Pública, fraudes em licitações e contratos, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Entre os alvos estão Marcos Moura e Bruno Barral.

É nesse contexto que ACM Neto aparece na investigação.


O que a PF investiga sobre ACM Neto

Segundo informações divulgadas a partir da representação da Polícia Federal, os investigadores apuram se ACM Neto participou da indicação de Bruno Barral para a Secretaria de Educação de Belo Horizonte e se essa indicação teria sido utilizada para favorecer empresários em processos de contratação pública, com eventual retorno ilícito.

A hipótese ainda está sob investigação.

A PF chegou a solicitar busca e apreensão contra Neto. A Procuradoria-Geral da República apresentou manifestação favorável à medida, mas o ministro Kassio Nunes Marques negou a autorização, considerando insuficiente a fundamentação apresentada para a diligência.

ACM Neto nega envolvimento e afirmou que as informações representam uma tentativa de interferência eleitoral por meio de vazamentos e associações que considera falsas.


Os contatos com Marcos Moura

Outro elemento mencionado pela investigação são as comunicações entre ACM Neto e Marcos Moura.

Segundo informações divulgadas pela imprensa a partir dos autos, a Polícia Federal identificou centenas de contatos entre os dois. Os investigadores também destacaram comunicação entre ambos em uma data na qual, segundo a apuração, Moura operacionalizava uma remessa de aproximadamente R$ 5 milhões em dinheiro vivo.

Além disso, mensagens obtidas pela PF mostram Moura mencionando ACM Neto e Antonio Rueda em conversas sobre articulações para secretarias da Prefeitura de Belo Horizonte.


O histórico de Moura com o grupo político

A relação entre Marcos Moura e o grupo político ligado a ACM Neto não surgiu agora.

A investigação atual busca verificar se determinadas relações tiveram conexão com contratações públicas e eventual obtenção de vantagens ilícitas.


O ponto de encontro: Barreiras, Belo Horizonte e Salvador

Os fatos podem ser organizados em uma linha do tempo:

2017 — MM Consultoria passa a atuar na limpeza pública de Barreiras, no início da gestão de Zito Barbosa.

2017–2020 — Bruno Barral ocupa a Secretaria de Educação de Salvador durante a administração de ACM Neto.

2024 — A Operação Overclean é deflagrada e Marcos Moura se torna um dos investigados.

Abril de 2024 — Bruno Barral assume a Secretaria de Educação de Belo Horizonte.

2024 — Segundo informações divulgadas a partir da investigação, a PF identifica centenas de contatos entre ACM Neto e Marcos Moura.

Abril de 2025 — Barral é afastado do cargo no contexto da Operação Overclean.

13 de novembro de 2025 — Otoniel Teixeira visita Belo Horizonte acompanhado do vice-prefeito e do secretário de Educação de Barreiras.

17 de setembro de 2026 — A PF deflagra a 10ª fase da Overclean, com 24 mandados e investigação sobre contratos da Educação de Belo Horizonte superiores a R$ 80 milhões.

Setembro de 2026 — A PF pede busca contra ACM Neto, mas o STF nega a medida.


O que está comprovado, o que está sob investigação e o que não está comprovado

SituaçãoInformação
DocumentadoA MM Consultoria, ligada a Marcos Moura, teve contratos de limpeza pública em Barreiras desde 2017.
DocumentadoForam registrados pagamentos milionários à empresa entre 2017 e 2024.
DocumentadoOtoniel esteve em Belo Horizonte em 13/11/2025 em agenda oficial relacionada à educação.
DocumentadoBruno Barral foi secretário de Educação de Salvador na gestão ACM Neto e posteriormente de Belo Horizonte.
DocumentadoA PF deflagrou a 10ª fase da Overclean em 17/09/2026.
DocumentadoA PF investiga contratos da Educação de BH que, em pelo menos três procedimentos, superam R$ 80 milhões.
DocumentadoMarcos Moura e Bruno Barral estão entre os alvos da nova fase.
Informação divulgada a partir dos autosA PF identificou centenas de contatos entre ACM Neto e Marcos Moura.
Sob investigaçãoSe ACM Neto participou da indicação de Bruno Barral para BH com finalidade relacionada às contratações investigadas.
Sob investigaçãoSe contatos entre Neto e Moura possuem relação com contratos ou vantagens ilícitas.
Não comprovadoQualquer participação de Otoniel Teixeira na Operação Overclean ou nos fatos investigados pela PF.

A pergunta que permanece

A principal questão jornalística não é simplesmente saber se os personagens se conhecem.

É estabelecer quais relações produziram efeitos concretos sobre contratos públicos.

Em Barreiras, existe um histórico documental de contratos milionários envolvendo empresa atribuída a Marcos Moura.

Em Salvador, existe o histórico de atuação de Bruno Barral durante a gestão de ACM Neto.

Em Belo Horizonte, Barral voltou a ocupar uma secretaria estratégica e contratos superiores a R$ 80 milhões passaram a ser examinados pela Polícia Federal.

Em novembro de 2025, o prefeito de Barreiras esteve em Belo Horizonte para uma agenda oficial sobre educação. A visita, isoladamente, não constitui evidência de participação nos fatos investigados.

Em setembro de 2026, a nova fase da Overclean reuniu novamente Marcos Moura e Bruno Barral entre os alvos da PF, enquanto informações dos autos divulgadas pela imprensa mostram que os investigadores também examinam a relação entre Moura e ACM Neto.

Esses fatos precisam ser separados das hipóteses investigativas. A existência de uma cadeia criminosa que conecte todos esses personagens não está comprovada e depende da conclusão das investigações e de eventual responsabilização judicial.

É justamente nesse espaço — entre a relação política, o contrato público e a prova — que a investigação precisa avançar.

Fontes principais

Polícia Federal — 10ª fase da Operação Overclean; UOL — pedido de busca contra ACM Neto e informações da investigação; Veja — mensagens obtidas pela PF envolvendo articulações em Belo Horizonte; Prefeitura de Barreiras — agenda institucional de Otoniel Teixeira em Belo Horizonte; dados e levantamentos citados na apuração sobre os contratos da MM Consultoria em Barreiras.